Visconde do Uruguai
I
Constante Conservadora no Império
Na história brasileira do século passado, a reação conservadora, desencadeada em 1837, a que se deu o nome de Regresso, constitui um movimento de idéia e ação política bem característico. Intimamente vinculado aos acontecimentos, à ideologia e às instituições que então se corporificaram, está Paulino José Soares de Souza, Visconde do Uruguai, correspondendo à tendência incoercível daquela reação.
Adstrita à cultura de seu tempo, destaca-se essa figura singular de homem público para, necessariamente, refletir a avalanche anti-liberal. Engendrara-se em seu espírito um sistema que lhe assegurou a preeminência na teoria e na prática regressistas. As circunstâncias mesmas em que ocorreu seu surgimento, no cenário político, como líder, parecem condicionar sua escolha.
Já se observou que os grandes homens mostram-se eficazes à medida que se tornam instrumentos de uma época. Uma conjuntura história cria a necessidade de uma determinada função política e fornece igualmente o órgão capaz de desempenha-la. As forças sociais que prevaleceram no movimento da Independência cabe a responsabilidade da tendência regressista, que encontraria em Paulino de Souza o seu herói. Exigia-se um líder realista, hábil, inflexível. O Regresso tinha em mira uma engrenagem que garantisse a unidade do Império, e a Paulino de Souza caberá a tarefa histórica de monta-la e consolida-la. Sua função seria, em termos hegelianos, tão criadora quanto a da parteira que ajuda a trazer para fora o que no útero se tornou maduro.
Oposto ao agitador popular e ao revolucionário, o Visconde do Uruguai é a personagem que encarna a ideologia das forças dominantes, emersas da Independência, o teórico dos senhores rurais criadores da peça política, que segundo Silvio Romero, foi a mais coesa já existente na história de um grande país. Por assim dizer consciente do papel que desempenharia, adestrara-se para os combates, arredando os sentimentos que pudessem interferir na liberdade deu seu jogo; nunca se deixa arrastar pelas paixões, enrijece os nervos, esmaga os afetos de família. Refina-se para as manobras políticas e parlamentares, revelando-se o estadista atilado, capaz de dançar, como diria Cotegipe, sobre uma mesa repleta de cristais. Quando o seu partido, sua gente, sua classe procuravam adaptar-se à nova conjuntura, quais ele aferrar-se a suas idéias integrando o triunvirato saquarema. Reiteradamente convidado para organizar o governo, recusa sempre por não desejar compromissos com o espírito de transigência inaugurado pelo Marquês de Paraná. Não cria dificuldades aos correligionários que abraçam a Conciliação, mas talvez considerasse extravagâncias figurar num Gabinete ao lado daqueles luzias (liberais irreverentes). Na etapa atual do processo de nossa emancipação econômica, necessário se faz recordar a figura de Paulino de Souza, líder dos fazendeiros fluminenses, que, montando a máquina centralizadora do Império, contribui decisivamente para a nossa unidade política e cultural.
(continua)
Deixe seu comentário