Paulo Mercadante: Ciência, Filosofia e Direito

Almir de Andrade: complementaridade entre ciência e filosofia

Posted in Ciência, Filosofia by pmercadante on 18/07/2009

Parte III

É necessário chamar a atenção para circunstância da falta de referência a Niels Bohr. Sobretudo quando percebemos claramente a marcha dialética para o fim de vencer a sua banalização dicotômica. Tarefa realizada pela abordagem do sábio dinamarquês.

Talvez Almir tenha tido conhecimento da origem da idéia que se inspirou em diálogo entre Arjuna e Krishna, em Gita, história de um romancista, Poul Martin Müller. Certo preconceito que teria também visitado Einstein, levando-o a demorar-se na aceitação do princípio da complementaridade.

Porém, indiscutível a formulação de De Brouglie, Dirac e Shrödinger. Nessa altura a opção almiriana está definida no problema do tempo próprio e do tempo relativo. Tanto Bérgson quanto Heidegger fixaram os marcos históricos de reabilitação como realidade que flui dentro do próprio ser, independentemente do tempo relativo pelo qual este se põe em contato com o meio exterior.

A filosofia existencialista representou papel importante por ter vinculado os conceitos fundamentais de ser e de tempo e analisado o tempo como algo tecido nas malhas do próprio ser. Porém desconhecendo o tempo relativo, alijando-o para o campo da existência inautêntica. Já na Física, todas as equações armadas operavam em torno da noção do tempo, que consistem na distinção entre o tempo relativo, subordinado à posição ou ao sistema de referência do observador e do tempo próprio, incorporado ao próprio objeto que lhe acompanha os movimentos, independentemente de qualquer ponto ou sistema de referência exterior.

A abordagem à consciência humana ajustar-se-ía, no pensar de Almir, à mecânica já exposta, de forma que tudo o que, através dos sentidos, lhe chega como expressão de relações de posição entre nós mesmos e o resto do mundo, representa o nosso espaço exterior ou nosso espaço relativo; mas tudo o que se acumula dentro de nós, como capacidade se ser ou vir a ser, como “lugar onde” acontecem todos os impulsos e pensamentos que são nossos que refletem as tendências mais profundas do eu, repetindo “tudo o que se acumula dentro de nós” representa o nosso espaço próprio ou o espaço mental interior.

De maior significado nesse ponto é a indissolúvel relação do tempo ao ser, pois o primeiro é sempre o processo de realização das possibilidade ontológicas do segundo. Creio que na Consciência e o Mundo, obra deixada inacabada, a questão da consciência humana e seu possível papel na formação da realidade física deve estar abordado. Necessariamente tal tema teria levado Almir à visão quântica do problema, o que relegaria ao segundo plano sua preocupação básica com a invariância e talvez com o próprio tempo na questão do ser. Ou falando no plano paradoxal de Schrödinger: “o gato não foi achado já morto quando violamos a caixa. De algum movo, dele morreu porque então o vimos. A nossa observação matou o gato”. Alguma coisa no ato de observar faz entra em colapso a função da onda.

Heisenberg conta sua visita em companhia de Niels Bohr ao castelo de Hamlet em Krönberg. Prigogine deu ao fato expressiva importância em seu livro sobre o Tempo e a Eternidade. Trata-se da questão da inseparabilidade da realidade e da existência humana.

O percurso filosófico de Almir de Andrade teve por destino o processo dialético. Em sua definição, o pensador atinge a solução intuída desde que a cogitação metafísica se desencadeou. Ela atravessou diferentes pontos da físico-matemática, alongou-se no tema do movimento e do infinito quando não mais se inseriu a problemática ontológica. Enquanto análise do tempo, sentimentos que o tecido se tornava capaz de assimilar a incidência da substância científica. Agora, a ontologia requer o método abrangente, que se dissocie da teoria dos conjuntos ou não se coordene com o transfinito cantoriano, mesmo na passagem ao limite na análise infinitesimal.

Todos os caminhos conduzem à dialética, inicia o filósofo sua abordagem. A visão dicotômica do passar e durar, quanto a estruturação do tempo, a oposição entre o contínuo e descontínuo, finito e infinito, a do átomo e da matéria e de todo o Universo por meio do equilíbrio de contrários, forças positivas e negativas. Por fim, insiste na própria estrutura do pensamento, na sua realidade e seu contrário.

Porém, Almir ainda recorre à Física a fim de esclarecer seu juízo a respeito da dialética. Ela não se apresenta como clássica e hegeliana. Ao contrário, endossa as previsões contidas nas equações de Dirac sobre o comportamento das partículas elementares e as transformações dos spinores. Os contrários não se opõem, complementam-se, como dizia Niels Bohr.

A Física, pois, corrige a dialética, vista pela meditação da esquerda hegeliana, tirando-lhe a contradição, a oposição sistemática.

Duas obras importantes compuseram-se no mesmo ano, em 1970: As Duas Faces do Tempo, de Almir e Le Hasard et la Necessite, de Jacques Monod. A crítica à dialética clássica mostra-se em ambos do mesmo ângulo, apenas se diferenciando em face dos temas, uma vez que o bioquímico francês tratava de genética, do projeto teleonômico, enquanto nosso pensador debruçava-se diante do tempo e do infinito e, paralalelamente, sobre o ser. Ao analisar o processo dialético da esquerda hegeliana, Monot referia-se aos exemplos ilustrativos à amplitude do verdadeiro desastre epistemológico que resultou do uso das interpretações dialéticas. Pois, acrescenta ele, fazer da contradição a lei fundamental de todo movimento, de toda evolução, é tentar sistematizar a interpretação subjetiva da natureza que permita não só descobrir nela um projeto ascendente, construtivo, criador, como também torná-la, enfim, decifrável e moralmente significante. Trata-se da “projeção animista” sempre reconhecível qualquer que sejam seus desvios.

Na reflexão almiriana, a física não suplanta a matemática, antes ajusta-se-lhe. A questão do tempo é volúvel não só em nossa consciência, como na próprias experiências de laboratório.

Na reflexão almiriana, a física não suplanta a matemática, antes ajusta-se-lhe. Como se os conceitos fundamentais da segunda permanecessem em meio ao tumulto das perplexidades da primeira. A questão do tempo é desconcertante, para não dizer volúvel, não só em nossa consciência, como nas próprias experiências de laboratório da física aplicada.

Considerando, assim os avanços da ciência nos últimos trinta anos, a observação de pé de página que se referiu às conseqüências do princípio da indeterminação, levando em conta antes mais afeitas à teoria do conhecimento, leva-nos à presente comunicação de que ao pensamento almiriano não seriam estranhas as posteriores incursões da mecânica quântica ao campo da consciência, incursões essas que se tornaram pertinentes ao princípio da complementaridade – consciência e não-consciência – em função do Condensado Bose-Einstein. Por certo, à Metafísica daria a nosso pensador o seu voto de confiança, a fim de perquirir de que natureza é o the between entre o ser a realidade.

Fim

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