Paulo Mercadante: Ciência, Filosofia e Direito

Miguel Reale: O Ator e o Espectador.

Posted in Ciência, Direito, Política by pmercadante on 26/09/2009

 I

 Em seu ensaio sobre os Deuses e os Homens, reportado-se à visita de Niels Bohr e Werner Heisenberg ao Castelo de Hamlet, Ilya Prigogine e Isabelle Stengers deram ênfase à circunstânica de que inseparáveis são existência humana e realidade.[1]

“Não é estranho que seja outro esse castelo desde que se imagine que nele tenha vivido Hamlet?”, indagou inicialmente o sábio dinamarquês. Como físico, prosseguiu ele como em tipo de monólogo, cremos que monumento desse porte consista apenas em pedras superpostas. As torres, o teto verde com sua pátina, as madeiras cortadas integrando a estrutura, nada disso devia ser diferente pelo fato de ter aqui vivido um Príncipe, cujo nome só aparece em uma crônica do século XIII. Porém tudo está mudado em Krönberg: as ameias, a capela, as muralhas, as pedras. Todos conhecem as reflexões postas por Shakespeare na boca de Hamlet, de forma que este deve aqui encontrar um lugar[2].

Ao certo, ao comprovar a relação entre existência e realidade, o cientista desertava a sua amada física para refugiar-se no templo da filosofia. Deus dera-lhe, como fez com Miguel Reale, o privilégio de buscar os fundamentos, as razões das coisas, dos fenômenos, da própria cultura.

Segundo Bohr, em suas incursões à psicologia, a pessoa pode contemplar, enquanto espectador ou quando apenas planeja sua ação e até reflete sobre os resultados. Entrementes, quando o autor também pensa, mas não de maneira contemplativa. Para ser espectador é, pois, necessário executar e avaliar o papel do Ator quanto ao desempenho do ato em si[3].

Miguel Reale é, sobretudo, o espectador. Fundamental este entendimento a fim de perceber a sua integração nas idéias e nos fatos históricos, trata-se de ideólogo, de humanista, inserido na realidade. Observador incansável, percuciente, atuando no drama e na tragédia da sociedade humana. Sua função como Ator é aparentemente reduzida, existindo de modo complementar a reflexão e ao raciocínio do filósofo.

O Ator, sabemos, não dispõe de liberdade no jogo das atividades, deixa-se conduzir pelas contingências, por recursos táticos, que o levam a navegar nas correntes dos cursos políticos. Nesse ponto, a atuação de Reale ateve-se à área jurídica e administrativa, dela tirando subsídios às concepções. A militância de homem público e a prática de jurista o teriam socorrido no campo do pensamento puro. Certamente o Espectador serviu-se do Ator bissexto nas experiências de laboratório.

Se partirmos do geral, de sua concepção quanto à humanidade e ao homem singular, identificamos em seu pensamento, a dimensão da Política.

Enquanto o Ator socorria-se do processo intuitivo, o Espectador percorreu meticulosamente o itinerário do discurso aristotélico, recorrendo não só à intuição, porém à retórica, à dialética e, por fim, a lógica. A primeira revela-se de começo, o ser apela em seguida à exposição acadêmica, depois, dirige-se ao diálogo e à polêmica, por fim, à certeza do saber.

Adolescente em 1930, ingressa nosso homenageado na vida universitária do Largo do São Francisco. A existência do jovem e a realidade histórica, econômica e social, defronta-se pela primeira vez em termos de inter-relação. Do ponto de vista da periodização do pensamento, trata-se do primeiro ato, que pode ser caracterizado como confronto com a crise do liberalismo. A tendência volta-se ao revisionismo marxista.

O impacto da crise de 1929 na bolsa de Nova Iorque havia devastado a vida econômica, jogando estilhaços por todo planeta. No Brasil, a elite gaúcha de formação positivista, derrubaria a chamada República Velha, instituindo novo governo. Para os paulistas, o movimento vitorioso iria constituir-se em autêntica journée des dupes.

Reale alistou-se nas fileiras de batalhão universitário. Saberia muitos anos após, discernir o equívoco. “Indo ao âmago dos acontecimentos, poder-se-ia dizer que houve desentendimento entre aqueles que exigiam a imediata implantação de uma ordem jurídica liberal e os que reclamavam outra de cunho prevalentemente econômico-social. O que aconteceu é que, se os primeiros pouca atenção souberam dar às questões sociais de base, os segundos revelara incompreensível desprezo pelas estruturas do Estado de Direito”.

Anos depois, embora não filiado ao Partido Comunista do Brasil, partilharia o acadêmico Reale com José Augusto, de liderança marxista na Faculdade de Direito de São Paulo. Todavia, cumpre ressaltar, assumiam posição favorável à pregação constitucionalista, convictos de que, ao Ideal Socialista, não interessava a ditadura que estava sendo fomentada. Motivo por que, desencadeada a revolta paulista de 1932, havia de nela engajarem-se os marxistas revisionistas[4].

De que modo defender o liberalismo em quadro de tão evidente malogro político e econômico? Pois não lhe souberam os adeptos fugir à postura blasé, nem forcejaram, ao menos, por explicar o problema.

Engaja-se o futuro pensador no socialismo. De Labriola, discípulo do hegeliano Bertando Spavento, primeiro filósofo marxista italiano, recebe o toque humanístico inicial que para sempre lhe marcaria a personalidade.

Dir-se-ia modalidade de socialismo liberal a tese que adota em artigo publicado, ainda acadêmica, em 1931. Inspirava-se também em Carlos Rosselli, em Solari, também sociais-democratas. A face da crise do liberalismo, o acadêmico não esposava a feição cientificista que Marx imprimira a sua própria doutrina. “Emancipamo-nos de Marx, mas não o renegamos”. Proclamava o jovem de 21 anos, no distante começo de 30, pregando não só o abandono do materialismo histórico, mas a interpretação da vida e possibilidade de um socialismo que não fosse materialista[5].

 

 


[1] Prigogine Stengers, Entre le Temps et l’éternité, Flammarion, 1992, p.38

[2] Heisenberg, Werner, Physics and Beyond. Encounters and Conversations, New York, Harper Torchbooks, 1972, p.51.

[3] Bohr, Naturw, 18, 73, 1930 apud Pais, Abraham, Niels Bohr’s Times, in Physics, Philosophu and Polity, Claredon Press, Oxford, 1991. p. 439, 440.

[4] Reale, Miguel, Memórias, volume 1, Editora Saraiva, S. Paulo, 1986, p.86.

[5] Idem, A Crise da Liberdade. Artigo publicado na Tribuna Liberal em junho de 1931 in Obras Políticas 1ª fase – 1931-1937. Editora Universidade de Brasília, 1983, p.10.

Anúncios

2 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. […] dos cursos políticos. Nesse ponto, a atuação de Reale ateve-se à área … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  2. Cristian Derosa said, on 21/10/2009 at 13:26

    Bom dia, sr. Mercadante.
    Alegra-me sempre ler os seus escritos. Sou um leitor e admirador dos seus trabalhos, principalmente de A Consciência Conservadora no Brasil. Envio-lhe também o link de um de meus blogs. Quero parabenizá-lo pelo trabalho de sua vida e dizer que é um grande intelectual e um nome daqueles que será lembrado quando voltar a normalidade no Brasil e no mundo.
    Atenciosamente,


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: