Paulo Mercadante: Ciência, Filosofia e Direito

Miguel Reale: O Ator enquanto Espectador.

Posted in Política by pmercadante on 10/10/2009

III

A guerra ocorria com as suas surpresas. O pacto germano-soviético assegurava a presença do comunismo internacional contra os aliados constituídos por países democráticos.

A intuição política haveria, certa feita, de manifertar-se-lhe, quando discípulos o hostilizaram durante a aula de retorno à Faculdade.

Responde às críticas passionais com a reflexão dirigida ao futuro. “Qual será a ordem de amanhã?”, indaga em improviso, “Já pensastes em responder a esta pergunta? A ordem de amanhã não está em nenhuma doutrina. Não está no nazismo, não está no fascismo. Não está também no liberalismo. Estes sacrifícios todos, da humanidade, estão demonstrando que marchamos para uma ordem mais humana, mais social, em que a Democracia será uma realidade”[1].

O pós-guerra por fim adveio. Os canhões tinham silenciado. A esperança mostrava-se luminosa no ano de 1945. A vitória sobre o Eixo, porém, não significara a morte das tiranias. O Século ainda mantinha o compromisso diabólico.

Nosso pensador completava 35 anos. O Ator, outra vez, está no palco, tem seu desempenho partidário em São Paulo, vive o período de transição, militando nas hostis de partido político. Nomeado Secretário de Justiça, a participação nos embates propiciaria experiência. Mas havia, nos alicerces da militância, a política de campanário, que o desencantou, que o desiludiu.

Inaugurava-se, assim, a terceira fase da reflexão ou ciclo de autêntico mergulho, ele diria mais tarde que na lavra de nossa realidade nascia o seu empenho de contribuir para a renovação da cultura brasileira, reavaliando o nosso passado mental, para que nos arriscássemos a pensar por nós mesmos.

Há 47 anos, em 1949, 10 de outubro, inaugurava-se o Instituto Brasileiro de Filosofia, nascendo, meses após, a sua Revista, que constitui o maior repositório do pensamento brasileiro.

O Filósofo buscava a visão culturalista dos problemas. A esperança na redenção do Século expunha-se claramente. O Autoritarismo não haveria de sobrepor-se ao ideal humanístico. Mas a realidade do pós guerra ainda não proporcionava segurança aos povos.

Derruídos os alicerces do fascismo e nazismo, restava o comunismo e o socialismo em sua forma marxista, abrangendo diversas correntes do leninismo e o trotskismo. A vertente que às vezes parecia identificar-se com teses de esquerda, não encampava a solércia da Internacional Socialista, antes contribuía para levar ao pensamento científico da economia a aragem humanística que a questão social sempre propõe.

Essa postura Reale endossou. Ainda em 1978 relembrava. “Não cheguei a pertencer aos quadros de nenhum partido, seja satilinista, seja trotskista. Considero o revisionismo socialista um ponto de partida para o pensamento político contemporâneo”. E concluindo dizia: “Mesmo quando assumi outras posições políticas, sempre conservei a bagagem de idéias vindas da meditação desses problemas”[2].

É inverdade do próprio temperamento do Mestre, a vocação para o diálogo. No País onde a mídia e os intelectuais sobressaem pela intolerância ideológica, fechando-se no círculo de fanatismo e mediocridade, Reale abriu a Revista de Filosofia a todas as correntes do pensamento.

Neste ínterim, a atividade da esquerda no Brasil, por circunstâncias ligadas às peculiaridades latino-americanas, conduziu o governo à tentativa de implantação de ditadura populista. Em conseqüência, a sociedade civil mobilizou-se para deposição do Presidente da República. Os fatos levaram depois à radicalização militar, dando ensejo à incansável pregação democrática de Reale na imprensa. Urgia buscar as saídas possíveis, o retorno necessário ao Estado de Direito, enfim, a plataforma democrática, vencendo, disse então, o impasse entre a “liberdade sem ordem” e a “ordem sem liberdade”.

A extinção do comunismo soviético e a derrubada do muro da vergonha em Berlim, caracterizam a nova realidade que pôs por terra, a dicotomia odiosa da Esquerda. O socialismo marxista desintegrou-se. As consciências democráticas tranqüilizaram-se quanto aos genocídios, aos perigos de guerras mundiais e às violações dos direitos individuais.


[1] Reale, Miguel. Memórias, Volume 1, op. cit. P. 179

[2] Reale, Miguel. Entrevista a Lourenço Dantas Mota, apud Miguel Reale no Conselho de Cultura, Moraes Filho, Evaristo, Boletim do Conselho Federal de Cultura, (74), 1989.

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