Paulo Mercadante: Ciência, Filosofia e Direito

Nabuco e Tobias

Posted in Uncategorized by pmercadante on 04/04/2010

Tobias Barreto desenvolve, em sua militância na impressa, por meio de artigos de fundo, a doutrina política que emanava de suas idéias. A crítica ao estado de coisas sobrepõe-se aos imperativos, certo ele de que os males se infiltram na estrutura geral do poder. Os anseios do povo brasileiro contidos pela prudência, a necessidade de priorizar a educação, a fim de permitir às gerações o correto sentido de reivindicar, a corte é o seu alvo, paradoxalmente, em artigo de evidente atualidade. Identifica a Nomenclatura que predomino no tecido administrativo a embrulhar as províncias e seus habitantes. Por fim, a condenação ao sistema representativo estendida ao Imperador.

Percebem-se no apostolado eleitoral o travo provinciano, a sinceridade de braço com a ingenuidade em muitas das afirmações, e, no quadro de sua franqueza a dúvida mesmo do que fazer diante da complexidade dos problemas que rolavam na dimensão do país.

Na ordem do dia, a campanha abolicionista o atrai aos comícios e à imprensa. Nesta, em editorial, escreve: “Se houver a imprudência de aí erguer-se um brinde à liberdade de consciência, o Brasil não poderá o acompanhar porque mantém em si a escravidão religiosa; se um brinde à liberdade natural ou civil não poderá satisfazer, é porque tem o escravo; se um brinde à liberdade política não poderá satisfazer porque não tem o cidadão”.

O trecho revela o modo pelo qual o pensador sergipano encarava a questão servil. O instituto cruel atravessava o indivíduo como estilete, sendo condenável porque contaminava o bem comum, a crença religiosa, o valor político e a própria subsistência. Para Barreto, abolição constituía o alicerce de todas as reformas necessárias, aquelas que deviam ser arrancadas do Príncipe ou da ordem republicana, que se punham acima dos sistemas filosóficos e jurídicos, não podendo ser inseridas em contexto algum, em doutrina alguma, flutuando sempre em qualquer estilo científico ou artístico, jamais acima do bem e do mal, em face de motivos econômicos, de equilíbrio social, espécie de impossível moral, que corroia na ação como lepra de pele, que tornava o oxigênio da respiração como asqueroso.

Sua repulsa à escravidão tornava-o às vezes tão virulento que omitia em suas polêmicas referência à chaga execrável, como também fizera Teixeira de Freitas a conceber o Código Negro para produzir a Consolidação das Leis Civis. Pode parecer crueldade intelectual subir às alturas do pensamento filosófico literário, alçar-se nas questões de religião e da arte poética, imiscuir-se como diletante nos temas científicos, para revira-los à procura de questões sociais, apreciar a música a ponto de conduzi-lo à estética da prima-dona e não se enrijecer todo na atividade revolucionário, na militância extremada que poderia leva-lo à prisão e ao desespero de nada poder realizar. Quanto ao pardo, o pobre estudante deve ter sofrido para reprimir a ânsia da rebeldia, pondo de lado a indiferença do meio para soluções antes mágicas do que realistas.

Por isso Tobias se revoltava contra os arroubos de Joaquim Nabuco, que se matriculara na Faculdade do Recife naquele ano, brandindo com o espadachim ousado a arma de luta, ao esgrimir elegante em tudo, nos gestos, no vestir-se, no caminhar e na fulgurante oratória, todo embate jogado nos rostos enrubescidos dos usineiros, dos racistas, dos ricos e remediados.

Filho do conselheiro Nabuco, a melhor cabeça do legislativo que transitava na Corte com os discursos reformistas. Tão coerente, tão audacioso, que o Imperador o temia, mesmo admirando seu talento e competência, não lhe entregando a chefia do Conselho de Ministros por ousado acha-lo.

Joaquim Nabuco, do pai seguiu os passos desde os 14 anos, quando, estudante ginasial, lhe escrevia cartas que se assemelhavam a desafios, pedindo-lhe atitudes arbitrarias para libertação dos escravos. No Recife, já moço, viajado, senhor de hábitos patrícios, gentleman, desafiava nos salões a arrogância dos escravocratas, pondo-se acima da truculência dos poderes, recendo dos conservadores regressistas, liberais, todos donos de escravos, o sorriso de convencional aprovação.

Assim, Tobias o conheceria nos corredores da faculdade, tendo que ouvir de sua voz candente convites para ação mais decidida, mais afoita, em favor dos pobres escravos. “Eu lembro o que eu vi na Inglaterra sobre essa vergonha nacional que é a instituição servil”, deixando Tobias, naqueles momentos, com a consciência pesada de mestiço, imaginando um de seus tios-bisavós, há menos de século, amarrado ao tronco para receber os açoites da sentença do senhor.

O autêntico, ouvindo o moço elegante ser olhado com certa admiração pela coragem, reprimia o seu desejo de seguir-lhe na tribuna, falar com mais autoridade, não só de mestiço, mas de mulato apenas tolerado, contendo seus tons violentos na medida do possível.

(Fonte:  Mercadante, Paulo. Tobias Barreto: o feiticeiro da tribo. Rio de Janeiro: UniverCidade Ed., 2006).

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Uma resposta

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  1. Melina Rovina said, on 12/05/2010 at 21:28

    Boa noite, Professor.

    Sou estudante de história e atualmente sou suma de suas novas leitoras. Descobri a preciosidade de seu trabalho e estou buscando ler seus livros. Já comecei com o “Militares e Civis: a ética e o compromisso” e tenho de lhe dizer foi muito últil na pesquisa que desenvolvo no mestrado. Gostaria de saber se poderíamos trocar e-mails, pois fico na espectativa de que o senhor possa me ajudar em questões específicas desse estudo que realizo sobre a Primeira República.

    Obrigada pela atenção,

    Melina Roberto Rovina


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